quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Literaturando: Um templo sob a fenda



   O machado rompeu o crânio podre da criatura. Mesmo com a queda de um deles estavam em maior número. Luwin segurou o machado com força e emparelhou-se com Maximillian para proteger Lyra e Tallas. Não era preconceituoso como o resto do povo subterrâneo, mas muitas vezes odiava a fragilidade dos elfos.
   - Descer as escadarias será tranquilo ele disse. Encontraremos muitos tesouros, pedras e armas ele disse. Temos tochas para iluminar o caminho ele disse. O que se pode temer do subterrâneo quando se tem um anão e uma aberração que enxerga na escuridão? Pode-se temer a morte, elfo imbecil!! – Berrou o anão que de tão bravio cuspia em sua própria barba.
   - Vamos todos morrer! – Disse o jovem Max desesperado. – Nem os deuses estão do nosso lado, essas monstruosidades já devoraram o paladino como se a armadura fosse nada.
   - Oh homens de pouca fé, apenas segurem-nas por mais um tempo até que a maga consiga fazer algum encanto. – Disse o elfo abaixado segurando o corpo febril do arqueiro aberrante.
   - Se você estivesse ao menos ajudando elfo. – Resmungou o anão defendendo a investida das garras frias do morto vivo.
   - Apoio moral ainda é apoio meu caro Luwin. Cuidado, a sua direita! – Seguindo a orientação do elfo, o anão girou o corpo com força e o machado rompeu as vértebras do pescoço do carniçal fazendo o corpo putrefato cair inerte ao solo. – Como eu dizia, estou ajudando senhor, e é melhor ficar atento se quer sobreviver mais um tempo.
   Era difícil derruba-los, sua carne podre não sentia dor, eram necessários golpes fortes e precisos para destroça-los, pois mortos não são mais feridos, é preciso ir além. Como se não bastasse à quantidade, as criaturas transmitiam através do toque gélido de suas garras uma doença que abatia sua vitima rapidamente e perpetuava sua maldição. A horda não morta investia contra o grupo acuado contra a parede com força total, possuíam tanta potencia em seus golpes que as armaduras dos guerreiros quase não ajudavam a diminuir o impacto sobre a carne. Max berrou forte quando as garras de um dos carniçais abriram três sulcos profundos em seu braço esquerdo. Deixando a espada cair o jovem ficou vulnerável a ataques oportunos das outras criaturas próximas, Luwin afastou-os com seu machado antes que dilacerassem o pobre rapaz caído.

   A situação difícil tornara-se periclitante, o anão era forte e resistente, mas era uma só pessoa, não conseguiria de forma alguma proteger seus companheiros sozinho. Pensou na péssima hora em que discutiu com Huruulk e expulsou do grupo quando o arqueiro se negou a seguir a exploração naquele lugar sombrio e sem lucro. Talvez devesse ter seguido o conselho do aberrante em vez de ouvir a ganância personificada em forma de elfo, mas agora era tarde. Decidiu que aquela situação era sua culpa, franziu o cenho, apertou forte a empunhadura do seu machado, e se atirou para os braços da morte gritando para que os outros se salvassem. O anão dava cortes cegos e multidirecionais, a lâmina da acha subia e descia, em horizontal e vertical, mas os poucos que atingiram os inimigos deixaram marcas profundas.
   - Precisamos ajudá-lo ou ele vai morrer! – Gritou a elfa em desespero. Contudo, o elfo riu, deixando-a com um misto de consternação e ódio. – Como consegue rir numa hora dessas? A morte é engraçada para você?
   - Nem um pouco minha cara irmã. – Respondeu ele tentando voltar à seriedade. – Ajude-me a tirar o rapazote daqui. – Disse ele se abaixando deixando-a confusa. Ao abaixar-se colocou o brado do rapaz sobre o ombro e o sangue que vertia do braço aumentou. – Ajude-me logo antes que eu acabe matando-o sem querer! Não entendeu o que Luwin fez? Ele não está lá para lutar, ele foi para morrer. Então não desperdicemos sua morte com conversa furada maga tola.
   O discurso de Tallas não surtiu muito efeito, Lyra continuou inerte com o olhar fixado no anão cercado de inimigos e sendo golpeado por todos os lados, fixo com uma rocha . O elfo então tentou levantar o rapaz sozinho, mas infelizmente ele era fraco, tão franzino e debilitado quanto um doente. Mas não desistiu, tentou arrastar o rapaz ferido segurando por baixo dos braços para tentar honrar o sacrifício do anão. O rapaz gemia e gritava enquanto perdia sangue, as feridas eram grandes e o esforço era muito grande, estava condenado. Não havia nada que poderia salvá-lo, e logo que Luwin perecesse em batalha, não haveria quem salvasse os elfos. Seria necessário um milagre.
   Duas flechas cruzaram a sala em ruínas zunindo e cravaram-se em um dos carniçais, uma no olhos, fazendo escorrer um liquido amarelado leitoso, e outra na garganta. Quando o desmorto caiu para trás ao se bater na perna de um companheiro, o olhar de todos se voltaram para a escuridão. Lyra apontou seu iluminado cajado na mesma direção, seus olhos apurados permitiam que visse alem do limite humano na penumbra, porém tudo que enxergara fora um par de olhos cintilando como os de um gato no escuro. Um amarelo e alaranjado. Aquilo foi suficiente para ela identificar o atirador, o dono do olhar mefistofélico era o aberrante arqueiro que retornara.
   O peso na consciência por deixar os companheiros seguir e dar ouvidos a raiva o fizeram voltar. Com exceção de Tallas, conhecia os outros há pouco tempo, mas a maneira que aceitaram sua aparência demoníaca e sua ligação com a tempestade rubra, fez com que conquistassem sua afeição. Sacou mais três flechas, segurou uma entre os dentes pontiagudos , e posicionou as outras duas no arco. Como se tivesse previsto a próxima ação do inimigo, retesou a corda do arco e disparou contra o par de carniçais que resolvera correr em sua direção. As flechas atingiram os joelhos opostos ao lado que corriam, o esquerdo no da direita, e o direito no da esquerda, desestabilizando a corrida e fazendo-os cair de cara no chão. Uma flecha não seria suficiente para detê-los, mas os atrasava bastante.
   Do outro lado da sala, ao sentir a esperança crescer minimamente em seu interior, Lyra rogou a Wynna, Deusa da Magia, que a ajudasse a libertá-los dos carniçais. Ergueu o cajado onde se encontrava o símbolo sagrado da deusa mãe e o brilho se ampliou.
   - Crias do mau uso da benção de Wynna, em nome da deusa, eu Lyra os esconjuro! – Gritou a elfa.
   Dois carniçais de se esgueiravam para perto deles depois de terem sido afastados pela investida do anão, foram os primeiros a serem atingidos pela luz púrpura que saiu do cajado. Seus corpos começaram a desfazer em pó negro, desintegrando-se por completo sem deixar um único membro. Tallas proferiu impropérios e baixezas de contentamento ao ver que a vantagem numérica aos poucos diminuía. Mas o poder de Lyra não era tão forte quanto necessário e apenas mais um carniçal se desfez no ar. Outros três ao serem atingidos apenas afastaram-se na direção de Huruulk correndo sem nem ligar para o aberrante. Contudo ainda restavam quatro deles, dois em torno de Luwin, e mais dois deitados com flechas nos joelhos.
   Ensanguentando o anão sorriu ao ver a sorte mudar para seu lado, balançou forte o machado e arrastou-o com um golpe baixo e preciso decepando de uma vez só as duas pernas de um carniçal levando-o imediatamente ao chão. Ao seu lado o outro desmorto tentou golpea-lo em vão, mas o anão não esperava ser mordido na perna pelo que acabara de cair e soltou um berro gutural. Na raiva encravou a ponta de lança na base do seu exótico machado no crânio da criatura, e tornou a repetir varias vezes o ato apesar dos miolos espalhados no piso danificado da sala. O guerreiro enfurecido só parou quando sentiu um agarrão firme no pulso, ver que tudo tinha acabado, e as últimas criaturas estavam com flechas cravadas no peito ou incineradas por magia. Que segurava seu pulso era o arqueiro, e ao ver a carapaça que formava uma meia mascara que lhe cobria a face, sorriu de canto de boca. Huruulk entendeu aqui como um pedido de desculpas e não mais tocou no assunto, pois sabia que os anões são teimosos como pedra.
   No canto da sala Lyra invocava encantamentos de cura na esperança de minimizar os danos dos ferimentos de Max. Uma luz clara saia se suas mãos e produzia sobre os ferimentos um efeito fantástico, como se o tempo voltasse para trás e os músculos e pele nunca tivessem sido atingidos. Curou apenas o necessário para que o rapaz pudesse sair daquela masmorra sem apoio, ou exigisse dos outros membros o mínimo possível. Ele se pôs de pé, estava bastante ensanguentado e cansado, verificou com cuidado os limites de sua musculatura regenerada antes de buscar sua espada caída e ver se Luwin estava bem. O anão sempre fora para ele uma figura paterna e um mestre. O grupo aproveitou para se reagrupar próximos ao anão, Lyra aproveitou para dar conforto ao guerreiro com magias de cura. Tallas ficou olhando cada um dos companheiros como se analisasse algo, todos estavam em silêncio sem trocar ao menos olhares quando o elfo se pronunciou.
   - Então, já que estamos todos bem podemos seguir a exploração. O que acham? Posso apostar cem Tíbares de ouro que não devemos demorar muito a encontrar a árvore dos frutos milagrosos e o dragão que os lagartinhos querem que recuperemos.
   - Bem? Acha que estamos bem? Esses ferimentos abertos em mim e Max são nada para você? E sua perna? Só está boa daquela queda que tomou naquele fosso por causa de Lyra. E por favor, não se esqueça do paladino morto e devorado ali no canto! – Berrou o anão cuspindo sangue e saliva na própria barba.
   - Vamos com calma pessoal. – Disse o elfo calmamente erguendo os braços sinalizando não querer briga. – Sei que o paladino é amigo de vocês de longa data, e por essa razão sabem muito bem que como servo de Thiatys ele vai retornar a vida até o dia que encontrar a morte derradeira. Não exageremos quanto aos ferimentos, sei muito bem que podemos sobreviver a mais que isso.
   - Saber que ele vai voltar à vida não tira a dor de vê-lo morrer. – Retrucou o anão irritado, mas logo foi baixando o tom da voz ficando pesarosa. – Faz com que nos sintamos impotentes, ou pior, que nos acostumemos a dar as costas pra quem precisa sem dar valor à vida.
   - E por dar valor a vida é que precisamos seguir em frente, talvez ainda achemos os filhos do mercador vivos e recebamos uma recompensa por isso. – O elfo recebeu vários olhares de desaprovação, mas continuou. – Quer parar de se esgueirar em tuneis atrás de uma fortuna e viver confortavelmente? Então precisamos de dinheiro. Deixem de hipocrisia e sejamos realistas, seus curativos, reparos de armaduras e roupas serão de graça? Não mesmo. Pensem nisso como uma recompensa por tudo que passamos, façamos cada cicatriz e ferimento valer a pena. Lembrem que há varias razões para estarmos aqui, altruístas e gananciosas. O paladino ofereceu-se para resgatar os filhos do mercador ou trazer seus corpos para um enterro digno. Todos sabem que meu interesse é no tal fruto que cura todos os males, pensem no lucro que isso daria. Depois que entramos e matamos aqueles ratos enormes vocês se envolveram numa questão territorial e decidimos acabar com toda uma tribo goblinoide em favor daqueles kobolds.
   - Que por sinal pediram que resgatássemos um dragão para eles. – Interrompeu a elfa.
   - Sabemos de tudo isso Tallas, você está certo, de algum modo torto, mas certo. – Disse Luwin tentando encerrar o papo, mas o elfo entendeu aquilo como uma rendição. – Só esqueceu de nos lembrar que até agora não conseguimos achar nem o tal fruto, nem os filhos do mercador, e o dragão que deveríamos devolver nos atacou e acabamos matando-o.
   - Mas conseguimos informações que diziam que encontraríamos as outras cosias em um único lugar aqui em baixo. – Rebateu o elfo cheio de si.
   - Aí descemos ainda mais nessa fossa imunda enfrentamos ramos animados e carniçais sedentos. – Retrucou Luwin numa espécie de disputa com o elfo.
   - Paremos a discussão inútil agora ou morremos todos parados nesse lugar sem comida ou água! – Disse Maxmillian em um tom assustador. – Precisamos decidir agora se voltamos ou seguimos, nem mais nem menos.
   - O garoto está certo, não podemos ficar parados aqui para descansar. Nem todos carniçais foram destruídos e não sabemos o que poderemos encontrar mais pra frente, sem falar que o cheiro de sangue vai atrair qualquer outro predador na região. Meu voto é por avançarmos, se voltarmos de mãos vazias teremos problemas com os Kobolds na saída, são pequenos mas somos muitos e nós estamos feridos. Se dermos sorte podemos encontrar outra saída. – Disse Huruulk, abrindo a boca finalmente.
   - Concordo com o homem de poucas palavras. Temos que seguir em frente se quisermos sobreviver. – Respondeu logo o elfo sorrindo.
   - E quanto ao paladino? Não podemos deixá-lo aí. – Questionou Lyra preocupada.
   - Deixem que resolvo isso. – Respondeu Luwin de pronto. - Sou o único que pode carrega-lo sem atrasar nosso avanço. Então esperem mais a frente que irei apronta-lo.
   Não houve questionamento dessa vez. O elfo sorriu abertamente, considerou aquilo uma vitoria e agora focara sua mente nos lucros. Deixaram o anão para trás para fazer o que tinha de ser feito, e não demorou muito tempo até que sentissem fome. Sentaram sem esperar por Luwin e comeram um pouco da ração de viagem que lhes sobrara, pão, frutas e carnes secas e nada mais. Max levantou-se para ir ajudar o mentor, acendera uma tocha pois não enxergava no escuro como ele, não demorou muito para que voltasse acompanhado pelo anão. Lyra procurou pelo corpo do paladino, mas não o conseguia ver até reparar que o guerreiro trazia algo enrolado em pano vermelho preso as costas. Quando o anão chegara mais perto a elfa pode notar o rastro de sangue que o seguia vindo do invólucro rubro em suas costas, e ficou tão aterrorizada que não ousou pergunta o que ele tinha feito para o corpo ficar tão menor.
   O grupo seguiu por corredores de pedra por mais algum tempo antes do cenário muda , o teto torto de três metros de altura dera lugar a um enorme salão natural com uma obscura floresta morta. Estalagmites, estalactites e árvores secas jaziam por toda a parte formando um labirinto macabro e sem vida. Caminharam por dentro do bosque pétreo com dificuldade, o terreno era bastante pedregoso e acidentado, tiveram ainda que lidar com criaturas sinistras de galhos secos e contorcidos animadas por magia maligna. Contudo as feras eram frágeis e mal resistiam um único golpe, isso quando não entravam em combustão em contato com tempestade, a espada elétrica de Max.
   O longo passeio no bosque sombrio só terminou quando Huruulk avistara ao longe uma construção iluminada. Era estranho, talvez absurdo, mas parecia que parte das pedras do templo que afundou na fossa negra foram utilizadas para construções de uma espécie de cercado. O aberrante era o único que enxergava com detalhes devido a suas condições físicas favoráveis e as habilidades naturais dos nativos de Collen. Como batedor, o arqueiro se ofereceu para seguir a frente, ainda nas sombras para tirar proveito de sua visão adequada à escuridão total. Se esgueirando segui sorrateiramente até a construção, e perceber que se tratava de um pátio murado por pesadas paredes de pedra. Dentro dele um verdadeiro jardim de variadas plantas surgia, incluindo brotos suspeitos de aparência retorcida. Contudo era no centro do pátio que crescia sob a luz avermelhada dos fungos da caverna uma árvore singular, seus galhos eram enegrecidos e retorcidos, e se elevavam como uma mão cadavérica brotando do solo. Havia também três figuras paradas ao lado da àrvore: uma mulher e dois homens, e ao lado de um deles repousava um sapo de quase um metro de altura.
   Sem demora Huruulk retornou ao grupo e descreveu tudo que viu com precisão. Tallas ficou cabisbaixo com a notícia de que a tal árvore do fruto curador pudesse não ser o que esperava, e que não havia sinal dos filhos do mercador. Convencido de que não havia mais nada a fazer a não ser descobrir sobre a árvore e a misteriosa transformação de seus brotos em seres assassinos, para livrar a cidade de Trosk do terror. O elfo decidiu unir forças a Luwin para montar uma estratégia para não intimidar o trio que cuidava da árvore e conseguir as respostas antes de qualquer ação precipitada. Ficou decidido então que apenas Maximillian, Luwin e Lyra entrariam na clareira, e os outros dois subiriam pela murada para surpreender o inimigo caso um combate fosse inevitável.
   O esperto elfo e o aberrante seguiram na frente, pois precisavam de tempo para escalar as paredes de seis metros de altura e a luz do bastão da maga os entregaria facilmente. O restante do grupo chegou à entrada do pátio de pedras a luz forte fez com que as sombras se alterassem e a barulho da armadura de malha do anão fizeram o trio se virar para saber o que acontecia. Quando a luz se aproximou, tornaram finalmente visíveis os três indivíduos: Um velho barbudo usando apenas um casaco marrom, provavelmente o tal druida que desaparecera na fossa há dez anos atrás, uma mulher com manto e roupão, e um cavaleiro com uma armadura de escamas. Mas a elfa e o anão logo notaram algo esquisito com os últimos dois, suas peles eram grossas e amarronzadas como cascas de árvores.
   - Por Wynna, o que são essas coisas? – Exclamou a Lyra em alto e bom som.
   Logo após a elfa se pronunciar três criaturas de galhos retorcidos levantaram-se entre os ramos secos. Ao ver a cena Huruulk silenciosamente aprontou duas flechas e retesou seu arco e esperou o momento certo para o disparo.
   - Mas que... – Resmungou o anão segurando o machado em posição de combate esperando pelo pior.
Contudo antes que o combate se iniciar-se o velho se pronunciou:
   - Parem, por favor, vocês nãos abem o que estão fazendo!
   - O que estamos fazendo? O que você está fazendo aqui é a grande questão? – Rebateu o anão perplexo.
   - Eu sou Boris, chamado o Exilado. Os druidas de Allihanna me expulsaram dos meus deveres com a natureza, malditos. – Disse o velho com um olhar de louco. - Sabem por quê? Porque ousei expandir o poder da mãe de maneiras que nunca ousaram tentar. Acha que me importo? Eu descobri o que procurava há tempos, personificado nessa árvore.
   - Não encontrei sentido algum em suas palavras Boris. – Disse Lyra olhando com certo desprezo para o velho druida. – O que tem essa arvore de tão importante?
   - É linda não é? – Disse ele com sorriso patético no rosto. – Está viva, embora pareça morta. Numa era passada, quando essa cidade nem existia e a grande Valkaria era uma criança, alguém encravou uma estaca no peito de um vampiro nesse exato local. A estaca ainda verde e criou raízes, e então ela cresceu e virou essa bela árvore, repleta de poder pra quem souber usa-lo.
   - Refere-se aos frutos? Ou as pragas que se espalham com as sementes? – Questionou sabiamente a maga. – Ainda não consegui entender, pode me explicar?
   - Sim, querida, me refiro ao potencial dos frutos dessa arvore magnífica. – Respondeu o druida tagarela como se nada importasse esconder. – Eu entrego o fruto aos goblins, eles gananciosos vendem na superfície e ajudam a espalhar suas sementes por lá. Irei colonizar a superfície usando os ramos secos, e logo conquistarei mais ‘suplicantes’ para me apoiar, esses dois foram os primeiros que a árvore aceitou, e estão sob minhas ordens, assim como os ramos secos. ´- Ao terminar o velho soltou uma gargalhada maléfica.
   - Por que está nos contando tudo isso se vamos arrancar fora sua cabeça? – Indagou o anão pronto para avançar.
   - Me matar? – Disse o velho rindo. – Vocês é que se tornarão ‘suplicantes’ ao meu serviço! Então entreguem suas armas e se submetam pacificamente ou será muito pior! – Ao terminar a ameaça duas flechas se cravaram no abdômen do velho, fazendo cambalear para trás.
   - Aí estão as minhas armas velho louco, se quer viver pare onde está agora ou entregarei mais quinze flechas que estão comigo agora! – Gitou Huruul com a voz ecoando no salão.
   Como se fossem sencientes, as criaturas árvores investiram sem comando vocal. O guerreiro de pele grossa foi o primeiro a investir, mas seu ataque foi frustrado por Max e tempestade. Luwin foi atingido por uma chuva de espinhos disparados pela mulher arbusto sem nem perceber seus movimentos. Coube a Lyra cuidar dos ramos secos que trotavam de maneira assustadora. A maga juntou as mãos espalmadas, proferiu palavras em dracônico e do meio dos seus dedos brotaram chamas que formaram um leque cônico que engoliu as três criaturas de uma só vez, reduzindo-os a bolas de fogo. Sobravam ainda o druida ferido e o sapo.
   O batráquio saltara na direção do druida, se prostrou entre ele e os heróis numa pífia intenção de protegê-lo. O velho levantou com dificuldade, e ainda golfando sangue disparou um raio de energia azul na direção do arqueiro. No entanto sua concentração estava abalada pelo ferimento, o raio atingiu a murada fazendo-a desabar levando junto o aberrante. A explosão da murada abalara toda a estrutura da gruta, e algumas estalactites dês prenderam-se do teto. Quando as pedras caiam próximas à árvore o Druida gritava enlouquecido em desespero. Enquanto todos os outros tentavam desviar-se de golpes e pedras, Tallas mantinha a calma diante da possível perda do amigo, seus olhos estavam fixados na direção oposta. Ao ver o desespero do druida soube qual deveria ser o alvo de seus ataques, sacou sua adaga mágica, fez mira e a arremessou contra a base de uma estalactite acima da árvore. A estrutura que estava abalada tremeu e demorou a cair, deixando o elfo angustiado, mas ao cair a rocha calcaria abriu a arvore retorcida em duas, espalhando uma seiva pegajosa tão rubra quanto sangue. O velho chorou em desespero ao ver a cena, e ao ouvir grunhidos virou-se apenas para ver as duas criaturas arbóreas perderem a vida e cedera à gravidade. O grupo inteiro sentiu um misto de alivio, surpresa e pena ao presenciar o deprimente fim do velho, ao tentar correr para amparar os ‘suplicantes’ tropeçar no sapo gigante e cair de barriga no chão fazendo as flechas de Huruulk ir mais fundo e se partirem. Alí era o fim de Boris, o exilado.
   Uma grande pira se acendeu no centro de Trosk. Ao redor dela os aldeões, o prefeito e os heróis olhavam para o fogo todos sérios e sentidos pelas perdas, exceto por Tallas que exibia um sorriso de canto de boca enquanto admirava o medalhão e o saco de joias que conseguira com os kobolds durante o retorno.
   - Como pode sorrir numa hora dessas? – Repreendeu Lyra chateada com o companheiro, mas o elfo nada respondeu.
   O prefeito aproximou-se dos jovens pesaroso e agradeceu mais uma vez ao heróis, mas foi franco ao assumir sua parcela de culpa no ocorrido.
   - Vocês perceberam que nossas ações foram coniventes e serviram para espalhar várias dessas abominações pelo mundo? Quem sabe o que essas plantas malditas estão fazendo agora? – Indagou ele apontando para os galhos retorcidos que queimavam na pira.
   - Podemos no momento não saber senhor. Toda via, prometo-lhe que não continuarão fazendo por muito mais tempo. – Respondeu o paladino repleto de ataduras de volta dos mortos. – E não lamente pelo passado, Thiatys te informa que todos têm uma segunda chance para reparar seus erros.
   - E nesse momento posso te afirmar que a ave da ressurreição nunca abandona aqueles que têm um destino a cumprir. – Concluiu Huruulk envolto em seu esconderijo sob seus mantos negros. Podia não estar visível à todos ali presentes, porém naquele momento o aberrante sorria ao olhar a benção maior que tinha recebido dos deuses: Companheiros leais.

2 comentários:

  1. Já viu a promoção que ta rolando solta no blog O Leitor?
    Ainda não?
    Então corre, que até o dia 05 de Fevereiro você ainda pode concorrer a um dos 6 livros que estão sendo sorteados.
    Beijos e espero você lá,

    Pamela.

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  2. Que texto bacana!
    Personagens chamativos e roteiro interessante!
    Eu gostei! :)
    Estou seguindo
    Beijos
    http://giselecarmona.blogspot.com/

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