quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Literaturando - Entrevista com o autor Leonel Caldela


O Coisa de Meninas tem o prazer de reabrir a coluna Literaturando, que antigamente era um espaço para contos e textos autorais, entrevistando o meu autor favorito, Leonel Caldela. Fala sério, nem todas as pessoas podem falar que um dia fizeram isso, seja por gostar de um autor internacional ou um já falecido, e eu tenho a sorte e o prazer de conseguir de primeira.

Para aqueles (as) que ainda não conhecem, Leonel Caldela é gaúcho, escritor de literatura fantástica. O RPG (Role Playing Game – Jogo de Interpretação de Personagem), hobby que pratica desde os 13 anos foi uma ferramenta fundamental para que viesse a se tornar um autor, além de muita leitura é claro. Leonel começou sua vida de escritor, com o apoio total de sua namorada e atual esposa, publicando contos na extinta revista Tormenta, que tinha o mesmo nome do cenário de RPG ao qual veio se dedicar anos depois. Antes de escrever para Tormenta, Leonel foi professor de inglês e começou como tradutor na Editora Jambô, coisa que continua fazendo até hoje. Seu primeiro livro (o meu livro favorito, diga-se de passagem) foi “O Inimigo do Mundo”, o primeiro da Trilogia da Tormenta. Hoje já tem 5 livros lançados, fora os livros de RPG que assina, e pretende continuar nesse estilo - de aventura, fantasia e ficção. Entre seus títulos estão Deus Máquina, Crônicas da Tormenta, O Caçador de Apóstolos e o Inimigo do Mundo, todos publicados pela nossa parceira Editora Jambô, a maioria desses devidamente já resenhados aqui no blog por mim.

Ace: Primeiramente, gostaria de agradecer em nome do blog Coisas de Meninas a sua disponibilidade e a boa vontade de ceder essa entrevista, sendo estudante de jornalismo sei o quanto é difícil se conseguir uma entrevista, ainda mais por email por conta do trabalho que elas dão ao entrevistado. Por tudo isso o nosso muito obrigado.

Leonel: Eu que agradeço pelo interesse! É sempre um prazer falar com os leitores — e com os blogs legais.

Ace: Agora vamos às perguntas. Você já deve estar calejado de responder essa, mas o que te levou a ser escritor? Era algo que sempre almejou ou a ideia surgiu com o amadurecimento?

Leonel: Hehehe, essa pergunta realmente sempre vem...

Até onde eu lembre, sempre quis ser escritor — desde criança mesmo. Cresci lendo muito, tanto livros quanto histórias em quadrinhos. Era muito incentivado em casa a ler tudo que me interessasse. Isso levou a ler coisas tecnicamente bem “acima” da minha idade na época, desde Moby Dick ainda criança até Clive Barker e Bukowsi no início da adolescência. Com tanta exposição às palavras, era meio impossível não ter vontade de escrever.

Por alguns anos, quis ser desenhista também. Inclusive cheguei a cursar a faculdade de Artes Plásticas. No entanto, vi que estava muito longe de um nível profissional no desenho, e que a minha verdadeira paixão estava na escrita.

Foi um caminho natural — embora não tenha sido fácil!

Ace: Todo autor tem suas fontes de inspiração, quais foram as suas? (Vale responder qualquer coisa, outros autores, obras, pessoas da família, amores, os seus gatos. XD)

Leonel: Em termos de literatura, Clive Barker, Margaret Weis e Tracy Hickman (autores de Dragonlance), Bernard Cornwell, Rubem Fonseca e recentemente Neal Stephenson, entre outros. Na “vida real”, quase todas as pessoas com quem convivo. Observar os outros sempre foi muito importante para mim como escritor: ajuda a conhecer opiniões diferentes, visões de mundo diferentes, maneirismos, etc.

Falando de “inspiração” como apoio para seguir em frente, sem dúvida minha esposa e meus pais foram fundamentais.

Ace: Por falar nesse assunto. O que podemos esperar do seu novo projeto? Pode nos contar algo?

Leonel: Complicado. Por enquanto, não posso dizer nada de interessante, mas posso contar um pouquinho sobre o que aconteceu este ano.

No início de 2012, considerei meu próximo livro “pronto”. Divulguei isso no Twitter, falei a várias pessoas, etc. Sabia que precisaria de revisões, edição, como qualquer obra, mas para mim estava bem adiantado. Infelizmente, eu estava errado. Isso acontece — às vezes estamos tão próximos de uma história que não vemos seus problemas. Como resultado, reescrevi boa parte do romance, obtendo um resultado muito melhor. Não foi a primeira vez que isso aconteceu: o primeiro terço de O caçador de apóstolos foi quase todo reescrito também.

Este trabalho extra gerou um belo atraso, e necessidade de uma nova avaliação, edição, etc. Não é nada grave. Mas significa que boa parte do livro ainda está “em aberto”, e assim não posso falar muita coisa.

Se os leitores estão impacientes... Imagine como eu estou! :)

Ace: Como dá para perceber pelo nome do nosso blog, a maioria do nosso público é feminino. Os seus livros costumam ter traços de violência e ação, que são, normalmente, atrativos ao público masculino. Dentro de sua obra o que seria atrativo ao público feminino?

Leonel: De início, eu não pensava em termos de público masculino e feminino — tentava escrever para um leitor essencialmente humano, sem foco excessivo em um ou outro gênero. Contudo, obviamente a perspectiva masculina é mais natural para mim. Temas essencialmente masculinos estão presentes nos livros porque estão presentes na vida de qualquer homem...

Depois de um pouco de experiência (lá pelo terceiro livro), tentei abordar o público feminino de forma mais consciente. Correndo o risco de perpetuar estereótipos (qualquer homem que disser que entende completamente as mulheres é louco ou está mentindo), vou enumerar algumas coisas que as leitoras já me disseram ao longo destes anos.

Em primeiro lugar, os relacionamentos. Já em O inimigo do mundo, a trama gira ao redor de vários tipos de relacionamentos: temos um casal estabelecido (Vallen e Ellisa), um casal que se conhece e vê seu amor surgir (Masato e Nichaela), uma relação de proteção entre amigos (Artorius e Nichaela), entre outros. O crânio e o corvo e O terceiro deus lidam muito com os conflitos de um casal; separação, reaproximação, mágoas, perdões... Tudo isso já me foi citado pelas leitoras.

O caçador de apóstolos e Deus Máquina têm relacionamentos (românticos e de outros tipos), mas principalmente distâncias quase intransponíveis entre personagens, “amores impossíveis”. Embora eu já tenha ouvido comentários das garotas a esse respeito, nestes dois livros elas parecem gostar mais é do personagem Atreu. Logo que o Caçador foi publicado, uma leitora me escreveu dizendo “Amei o Atreu! Ele é lindo!”, mesmo que houvesse na época apenas uma ilustração (meio obscura) do personagem... :) Elas parecem gostar do herói inteligente e decidido, não só com coragem física.

Por fim, o que mais ouvi delas em todos os livros foi que as minhas personagens femininas sabem chutar bundas. :) Não é algo consciente, mas quase sempre incluo mulheres fortes (tanto em personalidade quanto em físico) que não dependem de ninguém para salvá-las — e, em muitos casos, salvam os homens. Também já ouvi muitos comentários positivos porque estas mesmas personagens têm controle da própria sexualidade, sendo independentes e não se enquadrando em fantasias ou estereótipos masculinos. Quando escrevi uma personagem mais meiga (no caso, Nichaela, em OIdM), cheguei a ouvir de uma leitora “Não gosto dessas personagens virgens”. Detalhe: Nichaela é mãe! Ou seja, a leitora apreciava a franqueza e independência das demais personagens e, frente a uma mais “quieta”, chamou-a de virgem. :)

Se essa resposta imensa pareceu um autoelogio, desculpem. Achei melhor relatar o que ouvi do que tentar adivinhar as preferências femininas...

Ace: O que você acha dessa explosão da Literatura Fantástica nos últimos tempos, principalmente com autores brasileiros? Acha que isso pode durar ou seria só uma fase?

Leonel: Talvez a “explosão” seja passageira — no sentido de que, daqui a alguns anos, pode não haver tantos autores de fantasia começando. Contudo, acho que o gênero veio para ficar. Por uma série de razões, a explosão da literatura de entretenimento (acessível, não elitizada, não restrita) no Brasil coincidiu com o “boom” na literatura fantástica. Contudo, o gênero é saudável e bem estabelecido praticamente no mundo todo, e não acho que vá ser diferente aqui. Talvez haja uma diminuição do crescimento, mas continuará sendo algo grande.

Os leitores de hoje em dia não estão mais restritos a pequenos grupos acadêmicos, são pessoas de interesses e históricos variados. Portanto, a literatura de entretenimento veio para ficar. E, com ela, a literatura de fantasia.

Ace: Para quem ainda está começando a escrever, como eu, ou ainda pensando em fazer, pode dar algumas dicas?

Leonel: Em primeiro lugar: LEIAM. De tudo. Se gostam de fantasia, não leiam só fantasia. Leiam drama, policial, não-ficção, tudo mesmo! É a única forma de expandir os horizontes e evitar repetir demais o que já foi feito. Bons escritores são aqueles que agregam novos elementos ao gênero.

Além disso, estudem teoria e estrutura. Mesmo que não seja em sala de aula, procurem conhecer os fundamentos de um texto, por que ele funciona, e por que as histórias se organizam de determinadas formas.

Escrevam corretamente. Gramática e ortografia ruins destroem um livro com uma boa história.

Por fim: ESCREVAM. Não existe “inspiração”, não existe “estar no clima”. Quem quer ser escritor deve tratar a escrita como qualquer outro trabalho.

Ace: E dicas de leitura? Pode nos dar alguma?

Leonel: Já citei lá em cima, mas repetindo:

Rubem Fonseca, Clive Barker, Bernard Cornwell, Bukowski, Neal Stephenson... Chega a ser desnecessário citar George R. R. Martin hoje em dia, mas ele também é fundamental. Além, é claro, dos nossos autores de fantasia nacionais!

Ace: Agradecendo novamente a oportunidade da entrevista, deixamos um espaço para você dar o seu recado. Então sinta-se a vontade.

Leonel: Mais uma vez, obrigado pelo espaço. Continuem lendo e escrevendo!

Bom, pessoal espero que tenham curtido tanto quanto eu conhecer mais sobre o autor e ver que inteligência e humildade podem conviver em um corpo só facilmente. Quem quiser conhecer as obras e adquirir algumas delas pode acessar a loja da Jambô clicando AQUI e aproveitar o frete grátis , ou procurar em outra loja de sua confiança.
E você que por acaso também é autor ou tem alguém que gostaria de saber algo mais, manda uma sugestão para nós através do contato e prometemos correr atrás para trazer a entrevistas a vocês. Só para terem um gostinho a Karen Soarele e o Eduardo Spohr  já aceitaram dar entrevista e inclusive já estão respondendo. Participa você também.

Ace Barros

5 comentários:

  1. Oi gente! Muito legal a entrevista eu não conhecia este moço simpático.

    O blog está de cara nova, ficou super fofo, parabéns.

    Bjos!!
    Cida
    Moonlight Books

    ResponderExcluir
  2. Que legal a entrevista gente, adorei.
    Tomara que vocês consigam mais entrevistas assim! (:

    Boa sorte na nova fase do blog, beijos queridos.

    ResponderExcluir
  3. Além de um escritor foda, o cara ainda é super gente boa, man. Parabéns, meu velho! GO AHEAD!! Se já dava valor antes, passei a dar muito mais.

    ResponderExcluir
  4. Eita que o negócio tá chique hein? Entrevistas por aqui tb?
    Não leio rpg, por falta de contato mesmo, mas adorei o escritor, parece ser bem legal e simpático, muitos pontos a favor dele, rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os livros dele não são só de RPG. Ele tem 5 romances públicados fora os de RPG.

      Excluir