terça-feira, 16 de junho de 2015

Ouro, Fogo e Megabytes

Como esconder uma suspensão escolar dos pais, resgatar uma criatura mágica das garras de uma poderosa e mal-intencionada corporação e ainda por cima salvar o país de um desastre sem precedentes?
Anderson Coelho, um garoto nada extraordinário de 12 anos, divide sua vida entre a pacata realidade escolar e uma gloriosa rotina virtual repleta de aventuras em Battle of Asgorath, jogo de RPG online em que jogadores do mundo todo vivem num universo medieval, cheio de fantasia. Lá, Anderson – ou Shadow, nome de seu avatar – tem vida de estrela: é o segundo colocado do ranking mundial. E são justamente suas habilidades que chamam a atenção de uma misteriosa organização, que o escolhe para comandar uma missão surpreendente junto com um grupo de ecoativistas nada convencionais.
Ao embarcar para São Paulo, Anderson mergulhará de cabeça em uma aventura muito mais fantástica que as vividas em seu computador. Os encontros com hackers ambientalistas, ativistas com estranhos modos de agir e muitas criaturas folclóricas oferecerão a Anderson Coelho respostas não só sobre sua missão, mas também sobre sua própria vida, enquanto um novo mundo se descortina diante de seus olhos.
Título: Ouro, Fogo & Megabytes
Série: O Legado Folclórico - Livro 01
Autora: Felipe Castilho
Editora: Gutemberg
Número de Páginas: 288


Os leitores que acompanham o blog a mais tempo já sabem disso, mas é bom falar outra vez para os mais novos e aqueles que aqui caíram por acaso do destino: obras com protagonistas muito jovens tem uma grande chance de me desagradar por conta dos exageros nos feitos físicos creditados a eles. Casos justificados por alguma questão sobrenatural podem ser relevados, mas as vezes o próprio autor se perde nas regras que criou para seu universo. Mas, graças aos céus, ainda existem autores que sabem trabalhar e balancear muito bem habilidades e limitações para criar personagens mais críveis, sem perder carisma e potencial para aventura. Assim fez J.K. Rowling com personagens falhos, que evoluem, que vão além do físico, e assim também faz Castilho.
O mineiro Anderson Coelho não é uma pessoa comum. Para falar a verdade ele é sim, bastante comum. Fora o fato de ser o segundo melhor jogador em todo o mundo no MMORPG Battle of Asgaroth e líder respeitado entre um grupo de jogadores, Anderson é um garoto negro de 12 anos como qualquer outro. Tem poucos amigos (Renato vulgo HellHammer é seu único amigo não virtual conhecido), é bem ruim em esportes, não é muito popular na escola e nem o melhor aluno. Como eu disse, não há nada de estranho ou emocionante na vida do morador da cidade Rastelinho até o estranho contato feito através da internet...
Um misterioso grupo de ecoativistas chamado a Organização o convoca para uma missão que precisará de seus serviços como hacker para deter os planos de um empresário ganancioso inimigo da natureza. Como se o convite não fosse suficiente um estranho homem convence seus pais que o garoto deve ir com ele a São Paulo para "participar de uma copa de Matemática". Lá o garoto irá descobrir que a realidade que o cerca não é bem como enxergava e que pode ser muito melhor, mais fantástica e desafiante que seu jogo favorito. E tudo começa pelo fato de todo o folclore nacional ser real....
Felipe Castilho utiliza uma narrativa simples e fluida em terceira pessoa para acompanhar o desenvolvimento da trama e personagens. Os diálogos, apesar de joviais e contendo bastante referências ao meio Geek e Cultura POP, são bem construídos e não se tornam artificiais ou forçados. Essa naturalidade auxilia a agilidade da trama, além de deixa-lá mais fácil de compreender. Contudo algumas das referências utilizadas possam ficar bem datadas como Paquita e Zinedine Zidane (os mais jovens certamente não conheceram as assistentes de palco da Xuxa e nem lembram/sabem da cabeçada dada pelo jogador em Materazzi durante a final da copa de 2006), mas nada que atrapalhe a leitura.
Com uma trama muito bem trabalhada e que vai além do fator diversão, o autor cria uma trama que explora elementos da nossa cultura, normalmente tão renegada, os atualiza e os torna atraente para o público, sem desmerecer as origens (inclusive faz uma bela homenagem a um dos maiores folcloristas que o Brasil já teve: Câmara Cascudo). Além das lendas, Castilho também aborda temas ecológicos de forma natural, conscientizando os leitores e tecendo críticas a sociedade de consumo atual. Nosso protagonista apesar de jovem precisa amadurecer e evoluir a todo instante para lidar com os novos conflitos que lhe são apresentados, e isso acontece física e mentalmente. 
Castilho criou personagens carismáticos, cada um com características e histórias próprias, e - principalmente - com defeitos e limitações, mostrando que até mesmo os poderosos seres fantásticos possuem as suas. É difícil escolher entre eles o seu favorito.  É, claro, alguns personagens foram mais expostos que outros - como alguns órfãos da Organização em relação a outros deles - mas isso não significa que não possam ser melhor trabalhados ao decorrer dos outros livros da saga. 
Toda a parte gráfica e estrutural do livro é cercada de decisões acertadas desde a capa ao miolo, passando pela escolha das fontes para as diferentes representações gráficas (a trama, as conversas em jogo, email e sistema), o bem humorado e instrutivo glossário até as ilustrações que abrem cada um dos capítulos. Por falar delas, vamos dar os louros também aos ilustradores Octavio Cariello  pela capa e ao Thiago Cruz pelas ilustrações do miolo que ajudam e muito a entrar no clima da obra, além de revelar um pouco além do que é descrito.
Por ultrapassar o fator entretenimento, tratando muito bem de temas sérios e reavivar o trabalho com elementos da nossa cultura popular em uma linguagem mais próxima dos jovens, ouso dizer que a série Legado Folclórico poderia facilmente ser adotada por escolas. Felipe Castilho nos entrega uma obra deliciosa, que valoriza a nossa cultura e nos mostra que o Brasil tem muito a oferecer, tanto no quesito folclórico quanto em autores de qualidade como ele. Se não conhecia a obra e/ou o autor ainda, fica aqui o incentivo para que o faça em breve.


6 comentários:

  1. Oi Ace!!!
    Estava bastante ansiosa para ler sua resenha, porque o Felipe é um cara mega simpático, criativo e divertido, que pelo jeito, reflete isso em sua obra. Apesar de ainda não ter lido seus livros (desculpe amigo, sei que estou pecando!!!), minha filha adora a série Legado Folclórico e eu já sei um monte de coisas do enredo porque ela foi me contando, toda empolgada, enquanto lia. Acho que o 3º da série vai ser lançado ainda este ano, estamos aguardando :)
    Beijos... Elis Culceag. * Arquivo Passional *

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  2. Achei bacana o fato da obra focar no folclore brasileiro. Com tantas obras focando em mitologias de outros locais é interessante algo daqui. Eu ao menos conheço muito pouco e num livro de fantasia seria o melhor local para conhecer.

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  3. Ace!
    Não sei se é o tipo de livro que leria no momento, mas achei a ideia de inserir nosso folclore no livro, genial! Gosto quando um autor nacional ambienta seus livros aqui no BRasil, valorizando nossa terrinha.
    E para os fãs do gênero, acredito que o mote do livro é estimulante.
    “Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.”(Marquês de Maricá)
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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  4. que legal, gostei de conhecer o livro, nao conhecia o autor
    gosto muito de livros folclórico e fiquei bem curiosa pra ler.

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  5. Achei a mistura feita pelo Felipe Castilho bem interessante. Juntar Folclore brasileiro, com o meio Geek e Cultura POP não é pra qualquer um. Outro ponto positivo foi ver o cuidado de criar personagens completamente humanas, cheias de qualidades e defeitos. Então tem como não se interessar por uma saga assim?!?!

    @_Dom_Dom

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  6. Não conhecia o autor, e o livro não me chamou atenção, pois não gosto de literatura fantástica e sobrenatural. Mas acho que para os fãs desse gênero a história parece bem legal, só não arrisco ler porque sei que vai ficar na metade, não consigo me prender a esse tipo de história.

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