terça-feira, 10 de maio de 2016

Pílulas Azuis


Nesta narrativa gráfica pessoal e de rara pureza, por meio de um roteiro simples e de temas universais (o amor, a morte), Frederik Peeters conta sobre seu encontro e sua história com Cati, envolvendo o vírus ignóbil que entra em cena e muda tudo, e todas as emoções contraditórias que ele tem de aprender a gerenciar: amor, raiva, compaixão. Pílulas azuis nos permite acompanhar, sem nenhum vestígio de sentimentalismo, através de um prisma raramente (senão nunca) abordado, o cotidiano de uma relação cingida pelo HIV, sem deixar de lançar algumas verdades duras e surpreendentes sobre o assunto. Apesar da seriedade do tema, Pílulas azuis é uma obra cheia de leveza e humor. Não é à toa que é considerada por muitos a obra-prima de Frederik Peeters. Uma das mais belas histórias de amor já publicadas.
Título: Pílulas Azuis
Autor: Frederik Peeters
Editora: Nemo
Número de Páginas: 208


As vezes a nossa ignorância sobre o mundo nos distancia de questões que nos rodeiam e permeiam a sociedade. As vezes nos damos conta disso e em outras não. Algumas vezes isso é acarretado por algum preconceito enraizado em nós - que muitas vezes é fruto dessa mesma ignorância e da inundação de informações erradas que recebemos no dia dia - e em outras pela simples e total falta de empatia existente em alguns seres humanos; é claro existem diversas variações e hipóteses sobre isso, mas digo com total certeza que a busca por informação precisa e conhecimento é a melhor arma contra essa sombra. A leitura é, como bem sabem, um dos principais instrumentos dessa luta, mas não são apenas apenas dos tão amados e adorados livros que podemos retirar boas lições.
Premiada internacionalmente e reconhecida pela crítica especializada nacional como um dos melhores lançamentos de 2015, a Graphic Novel Pilulas Azuis - obra do suíço Frederick Peeters publicada pela Editora Nemo - nos traz uma tocante e informativa história real sobre amor, respeito e HIV.
Sério, dificilmente você irá encontrar uma história tão leve sobre um assunto que ainda é tido como um tabu pela sociedade. 
Como dito anteriormente, Pílulas Azuis é uma história real, um registro autobiográfico em quadrinhos. Durante toda a obra acompanhamos uma parte da vida de Frederick, começando ao fim da fase da adolescência até os dias atuais (ou tão atuais quando eram em 2001 ano de lançamento original da obra) e somando-se ao apêndice de 10 páginas sobre a família de Peeter 13 anos depois.
Tudo se inicia quando em uma festa entre amigos ele conhece Cati e fica fascinado, mas é apenas anos depois daquela festa, após uma sequência de encontros e desencontros, que eles iniciam um relacionamento amoroso. E é aí que o principal ponto de virada da trama acontece: segura de seus sentimentos e suas vontades, antes de dar o passo um passo adiante, Cati revela que é soropositiva e que seu filho, fruto de uma relação anterior, também. Porém Fred a ama incondicionalmente e está disposto a levar o relacionamento a diante seja como for.
Assim Frederick segue convivendo e aprendendo com Cati, enfrentando o a reação dos amigos e familiares e lidando com o pequeno enteado. Contudo, apesar de estarem juntos a um ano e seus pais adorarem Cati e a criança, Fred nunca teve coragem de contar a eles sobre a doença. Nesse momento Cati insiste que Fred conte para seus pais sobre a sua condição e temeroso sobre a reação dos pais, frutos de outra época, o artista tem a ideia de fazê-los saber sobre o assunto através de uma história em quadrinhos. Sim, exatamente essa obra a que temos contato! 
Falar de AIDS evidentemente não é algo simples, muito menos desconstruir toda uma miríade de informações errôneas, incoerências e preconceitos acumulados com os anos de julgamento sem base. Talvez seja o medo e o mito entorno da doença o principal problema. Quem pode julgar? Mas o ideal é buscar entender melhor e as informações acerca do HIV, seu tratamento e do relacionamento do portador com as pessoas e a sociedade são apresentados de forma precisa, acessível e real. Não são informações inventada e nem criada para catequizar alguém a ser bom moço ou uma pessoa correta e livre de preconceitos. É uma história verdadeira, sincera e complexa que com certeza vai te auxiliar na desconstrução daquilo que você entendia ser a vida de uma pessoa com AIDS.
Peeters nos traz tudo isso de forma muito sensível, ilustrando um pouco da vida cotidiana da família deles, as questões que envolvem os relacionamentos e o amor, e também suas questões pessoais com todas as dúvidas, perturbações e medos. E estará totalmente enganado que achar que por tratar de um tema considerado pesado por muito o clima da história seja sempre sério e dramático, muito pelo contrário.
A narrativa de Pílulas Azuis é feita com leveza, de forma humorada e humanizada, sem tratar a doença e seu portador como monstros, mas de forma natural colocando-a como mais um contratempo que qualquer pessoa está suscetível em seu dia a dia. Algumas pessoas tem que lidar com a falta de emprego, outras com vícios, outras com desavenças de casal e outras com a AIDS. Essa honestidade no texto faz com que a leitura flui tão bem, sem travas, sem perder a importância do debate sobre o assunto e nem apelar.
Outro fator que tem grande importância na forma que a história é contada, recebida e absorvida está nas ilustrações produzidas pelo autor. Os traços mais simples, livres e cartunesco é agradável aos olhos e ao mesmo tempo consegue passar tudo aquilo que precisa passar. Cada quadro, cada expressão, cada olhar reforçam todas as sensações e emoções implícitas naquelas cenas - com espaço para extrapolações surreais do pensamento que só a arte sequencial é capaz de entregar - e complementam o enredo dessa história envolvente e tocante.
Apesar de ter lido a versão digital (e aqui agradeço ao meu indispensável e fiel companheiro de blog lá no Multiverso X - Airechu - pelas fotografias), posso falar que a Nemo contribui bastante para que seja não apenas uma bela história, mas uma obra que valha a pena se ter. Não digo apenas pelos detalhes técnicos - capa cartonada com orelhas, papel off-set de boa gramatura e impressão, etç e tal - mas pelo zelo evidente que traz em seus trabalhos.
Fica evidente que os prêmios recebidos por Pílulas Azuis não são meras medalhas sem valor entregues por hipócritas "comovidos" a respeito da temática. Ao trazer as reflexões do seu convívio direto com a doença e expor a sua vida de forma tão sensível e bem-humorada, sem exageros emotivos, Peeters nos conduz além do entretenimento e da informação, nos entregando uma das mais tocantes e incríveis histórias de amor que já tive contato. Uma leitura realmente indispensável!

13 comentários:

  1. Oie. Uau, que resenha sensacional! EU não conhecia esse livro e fiquei mais que interessada. Em primeiro lugar porque amo histórias reais e também porque essa, abordando o HIV que vemos sendo pouco abordado é muito interessante. Também gostei muito de saber do fato de que é tudo narrado com leveza, assim podemos desconstruir nossos preconceitos. E só pelo que você falou eu concordo que o autor mereceu todos os prêmios que recebeu pelo livro.

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  2. Oie...
    Primeiramente queria lhe parabenizar pela resenha MARAVILHOSA que você nos presenteou! Parabéns...
    O tema principal do livro é bem forte e delicado ao mesmo tempo, logo, tem a capacidade de deixar alguma marca no leitor, mesmo, já tendo terminado a leitura. O fato de ser uma história real me interessou bastante, também.
    Essa edição está perfeita e acho que não tenho nada em quadrinhos assim.
    Vou botar na minha meta do skoob.
    Bjo

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  3. Oie...
    Primeiramente queria lhe parabenizar pela resenha MARAVILHOSA que você nos presenteou! Parabéns...
    O tema principal do livro é bem forte e delicado ao mesmo tempo, logo, tem a capacidade de deixar alguma marca no leitor, mesmo, já tendo terminado a leitura. O fato de ser uma história real me interessou bastante, também.
    Essa edição está perfeita e acho que não tenho nada em quadrinhos assim.
    Vou botar na minha meta do skoob.
    Bjo

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  4. Olá, Ace.
    Primeiro parabéns pela resenha, está ótima. Não conhecia ainda e infelizmente não me interesso muito por Graphic Novel e Hqs, porque se não leria com certeza. Não lembro de ter lido nenhum livro ainda que tenha a AIDS como tema principal. Mas vou repassar a dica para uma amiga que sei que gosta.

    Blog Prefácio

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  5. Oi!
    Amei sua resenha! Muito bem escrita e descrita. a sinopse do livro me interessou, mas sua resenha me fascinou. Não conhecia o livro e nem o autor e fiquei com mais vontade de ler por saber que são baseados em experiências reais e como vc disse, o assunto HIV, apesar de estar por aí, ainda é um tabu e traz muito preconceito!
    http://colecionandoromances.blogspot.com.br/

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  6. Oieee! Esse livro ganhou meu coração desde a primeira resenha!Acredito que a forma como o autor escolheu contar essa história foi super acertada pq ele transformou um tema pesado em uma coisa mais leve de certa forma. A história parece ser LINDA, e embora eu não aceite que ainda exista preconceito nos dias de hoje, sei que existe e as pessoas deveriam ler mais sobre esse tipo de assunto. Aliás, sempre achei que todo preconceito era baseado na ignorância, e quem não lê... Bom, adorei a sua resenha! Bjosss

    htp://www.porredelivros.blogspot.com.br

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  7. Oiii, tudo bem?
    Que sonho em ter uma obra prima dessas aqui em casa na minha estante, nos meus braços. Realmente achei bem diferente a história trabalhada, nunca li nada assim, no qual despertou muito meu interesse. Sua resenha e as fotos ficaram incríveis e nos revela que hoje ainda existe esse maldito preconceito, acredito eu que todos deveriam ler este livro.
    Beijinhos

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  8. Oiii!!!

    Eu não li esse livro ainda mas estou bem interessada, pois eu acho que essa é uma temática que merece ser mesmo muito debatida.
    Gostei muito da sua resenha, completa, e muito bem escrita!
    Parabéns!!!

    Beijinhos

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  9. Não é a primeira bela resenha que leio sobre essa obra – outras, anteriores, já me fizeram colocá-la entre as obras que desejo conferir –, mas o que dizer? ADORO ler mais e mais sobre o enredo que Pílulas Azuis traz. Parece que há uma humanidade muito grande no modo como os fatos são narrados, e na expressão dos personagens. Uma beleza real, do tipo que tem também o seu lado feio. Parabéns por apresentar sua opinião de um modo tão sensível. Notei como a obra te convidou a refletir, e como te envolveu. Com certeza quero viver essa mesma experiência de leitura.

    Beijos!
    www.myqueenside.com.br

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  10. Oi!!
    Eu não conhecia esse livro e logo de cara achei o título um tanto estranho rsrs. Nossa não imaginava que o livro narra uma história tão pesada, mas como você disse o bom é que é de uma maneira leve, temos que falar sobre assuntos como esse, mas infelizmente muitas vezes o preconceito fala mais alto.
    Eu quero esse livro, que legal a ideia dele fazer os quadrinhos, gostaria muito de poder ler, realmente acho que ela está certa em querer que os pais dele saibam e o mais incrível de tudo é que ele aceitou ela e o filho sem nenhum medo e preconceito, mas acredito que muitos que sabiam da condição de Cati devem ter se afastado.
    A tua resenha ficou perfeita é impossível não querer esse livro e acredito que o autor fez um ótimo trabalho, pois temos que falar sobre esse tema.
    Beijão!

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  11. Olá! Estou muito interessada na leitura desse livro. Me parece uma história forte, que trata do HIV com uma visão diferente. Não sabia que retratava uma história real, que falava sobre o cotidiano da doença. Se tratam de uma forma bem humorada, melhor ainda. Vai furar a fila de leitura.
    Beijos!
    Karla Samira
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

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  12. Oi Ace, uau, não conhecia o livro e fiquei bastante interessada principalmente por ser um livro que desmitifica a doença e retrata a realidade. Infelizmente há muito preconceito com relação a doença, seja por falta de informação ou por qualquer outro motivo e conhecer essa história pode ajudar muitas pessoas a compreender melhor. Parabéns pela resenha

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  13. Oie!
    Sabe, eu preciso ler mais hq's e acho que começar com uma história tão impressionante seria mais que um bom começo!
    É como dizem, um grande agravante com essa doença com certeza é o preconceito, que doi muito.
    Parabéns pela resenha, muito bem feita!

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