quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Todo Mundo Vê Formigas

A 1ª coisa que você precisa saber é que tudo o que eu fiz foi uma pergunta idiota. A 2ª coisa que você precisa saber é que essa pergunta idiota me trouxe muitos problemas com Nader McMillan, o cara que faz bullying comigo desde que eu tinha 7 anos. E uma semana atrás ele pegou bem pesado comigo. Foi aí que eu comecei a ver formigas. A 3ª coisa que você precisa saber é que meu avô Harry desapareceu durante a Guerra do Vietnã e nunca foi encontrado. Então, todas as noites, eu tento resgatá-lo da sua prisão na selva em meus sonhos. Mas nunca consigo. A 4ª coisa que você precisa saber é que minha mãe é uma lula e meu pai, uma tartaruga. Ela tenta afogar os seus problemas nadando o dia todo em uma piscina pública, e ele nunca está por perto e desaparece dentro da casca no primeiro sinal de confronto. Então, se juntarmos Nader McMillan, a minha pergunta idiota, vovô, e tudo o mais na minha vida, somos só eu e as formigas. 
Titulo: Todo Mundo Vê Formigas
Autor (a): A.S. King
Editora: Gutenberg
Número de páginas: 240


Que alegria poder voltar aqui e falar de uma autora tão querida como a A.S. King. Ano retrasado eu havia lido Os Dois Mundo de Astrid Jones e fiquei encantada, não só pela história, mas pela narrativa da autora e a forma com que ela transformou assuntos tão sérios em algo leve e gostoso de ler. Fiquei muito curiosa para ler outros livros dela e, quando a oportunidade de ler esse livro apareceu, agarrei com unhas e dentes.
Lucky Linderman é um garoto diferente dos demais garotos de sua classe. Ele é um garoto tímido, que desde os 7 anos de idade sofre bullying de seu colega Nader McMillam. Sabe aquele tipo de garoto profundamente irritante que as pessoas fazem vista grossa porque é filho de gente importante? Esse é o Nader. E depois que cresceu as coisas não mudaram muito.
Por um tempo, no primeiro ano, Lucky passou a andar com Nader. Eles tinham amigos em comum e a convivência foi melhorando. Contudo, as coisas voltaram a ser como antes quando Lucky vê o questionário que montou para um trabalho de Ciências Sociais. A pergunta preparada por ele era "Se você fosse cometer suicídio, qual método escolheria?" e isso gerou uma grande polêmica na escola.
O fato é que esse era um tema comum nas conversas que ele tinha com Nader e outro colega, uma espécie de piada interna dos três. Mas, ao tomar conhecimento do fato, seus pais foram chamados na diretoria e, após passar por extensas conversas com especialistas, chegaram a conclusão de que ele precisava de ajuda pois estava propenso a ser um adolescente depressivo e que poderia se suicidar. A partir de então sua vida vira de cabeça pra baixo. Nader volta a persegui-lo e a relação com os pais, que já não era muito boa, fica pior. A mãe decide então levá-lo para passar um tempo no Arizona, na casa do tio. E esse tempo afastado de tudo e de todos vai mudar completamente a vida de Lucky.
Em paralelo a tudo isso, acompanhamos um outro drama que se desenrola na vida desse garoto. Antes de falecer, sua avó pediu para que Lucky não desistisse de encontrar o avô, que foi dado como morto na Guerra do Vietnã, porque ela acreditava que ele ainda estava vivo. Em vários momentos acompanhamos os sonhos dele com o resgate do avô e a cada nova situação personagens diferentes, e que fazem parte de sua vida, aparecem para ajudá-lo nessa missão.
Todo Mundo Vê Formigas foi um livro que me pegou logo de imediato por conta do tema. Já li muitos livros que trazem o bullying inserido em suas histórias, mas nenhum deles conseguiu ser igual a esse livro. Quando falamos em bullying já pensamos em coisas pesadas e esse realmente tem algumas cenas que me deixaram com o coração apertado. Porém, a autora conseguiu construir uma trama leve, mas que mesmo assim nos leva a diversas reflexões ao longo do texto.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a forma como a diretoria da escola e os especialistas trataram Lucky. As pessoas estavam dispostas a julgá-lo. Ele é um adolescente solitário, introvertido, que pensa em suicídio e que, certamente, sofre de depressão. Antes de ouvi-lo todos já o haviam "condenado" e chegado a conclusão de que ele precisava de ajuda. Ninguém ligava para o que realmente acontecia com ele, o que importava era a ideia do que eles achavam que Lucky tinha.
Mais uma vez A.S. King conseguiu mexer com meus sentimentos e me proporcionou uma leitura incrível, com passagens que me partiram o coração, que me fizeram sorrir, me deixaram com um bolo na garganta e, principalmente, que me levaram a questionar diversas situações que vejo acontecendo no meu cotidiano. A forma como ela abordou o papel dos pais na vida de Lucky, mostrando o quanto eles eram distantes, cada um com seus afazeres, e o tanto que isso refletia no relacionamento deles com o filho e entre eles (marido e esposa), foi louvável. Ela mostrou, de uma forma concisa, o que acontece em diversas famílias espalhadas pelo mundo.
Foi uma história que tocou e cativou muito. É o tipo de história que rende uma excelente discussão e fiquei muito feliz em saber que ele será o tema do debate do clube do livro do Grupo Autêntica no mês de abril. Com certeza será uma experiência muito boa poder conversar, apontar tudo aquilo que nos marcou e fazer com que mais pessoas conheçam esse livro.


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