quinta-feira, 23 de março de 2017

Os Filhos de Anansi


Charlie Nancy tem uma vida pacata e um emprego entediante em Londres. A pedido da noiva, ele concorda em convidar o pai para seu casamento e fazer disso uma tentativa de reaproximação, já que há vinte anos os dois não se falam. Enquanto isso, no palco de um karaokê na Flórida, o pai de Charlie tem um ataque cardíaco fulminante. A viagem de Charlie até os Estados Unidos para o funeral acaba se tornando a jornada de uma nova vida. Charlie não tinha ideia de que o pai era um deus. Menos ainda de que ele próprio tinha um irmão. Agora sua vida vai ficar mais interessante... e bem mais perigosa. Embrenhando-se no território de lendas e deuses pagãos, a poderosa narrativa de Neil Gaiman leva o leitor a mergulhar nessa história fantástica e bem-humorada sobre relações familiares, profecias terríveis, divindades vingativas e aves muito malignas.

Título: Os Filhos da Anansi
Autor: Neil Gaiman 
Editora: Intrínseca
Número de Páginas: 238


O que você faria se descobrisse que após anos sem se falar descobrisse que seu pai morreu? E se ao viajar para o sepultamento dele descobrisse que ele na verdade era um deus? Tá pouco? Que tal descobrir que após tanto tempo sendo filho único na verdade você tem um irmão? É, as coisas pra Charlie Nancy não são muito simples, não é verdade?
Em Londres desde a separação de seus pais, Charlie Nancy leva uma vida tranquila. Tem um emprego entediante, mas tido como seguro, e está prestes a se casar. Por insistência de sua noiva, Rosie, Charlie tenta contato com seu pai para convidá-lo para o casamento e descobre que o velho Sr. Nancy está morto. A relação entre os dois nunca foi das melhores. Charlie nunca se sentira à vontade na presença do pai, sentia-se constrangido o tempo todo com o comportamento do velho bonachão e as brincadeiras de mal gosto. Até a forma como era mais conhecido devia ao pai: Fat Charlie Nancy. Durante um encontro com um grupo de senhoras amigas da família, Fat Charlie descobre que seu pai era Anansi, um deus de origem africana, e que tem um irmão que nem ao menos lembrava de existir. Desorientado, ainda um tanto abalado e ainda sem acreditar muito na conversa, Charlie faz o que foi orientado a fazer caso quisesse falar com seu irmão: falar com uma aranha - sim, uma aranha - que precisava vê-lo. Porém, quando Spider atende ao chamado sua vida se transforma totalmente.
Como bem meu nobre colega o Airechu destacou em sua resenha, a jornada do homem comum ao sobrenatural é um tema recorrente nas obras de Neil Gaiman. Por vezes de forma direta e em outras de forma sutil, a jornada por uma nova realidade serve para muito mais do que conduzir o personagem principal em uma trama de descoberta do mundo a seu redor: é uma jornada de descoberta do mundo interno. Fat Charlie, que sempre viveu uma vida pacata, constrangido pelo comportamento do pai, acaba descobrindo muito mais sobre si do que sobre seu pai e seu irmão ao fim da jornada.
Através de uma narrativa fluida, Neil Gailman constrói trama divertida e envolvente, carregada de humor e sem pretensões de ser denso. Mesmo sendo considerado por alguns com uma sequência de Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi conta uma história própria e desvinculada de qualquer obra. Não existe a obrigação de ler um para conhecer o outro, suas histórias seguem linhas bem diferentes de abordagem e profundidade. Talvez isso torne a leitura de Os Filhos de Anansi mais fácil, apesar de algumas poucas confusões ocasionadas pelo distanciamento - e desconhecimento - do mito africano de Anansi, mais popular na América Central e Sul dos EUA (além óbvio de países na África). Digo isso porque em meio aos capítulos, pequenas pausas na narrativa são usadas para contar algumas destas histórias do Deus-Aranha e ajudam a construir indiretamente alguns outros personagens da trama (obrigado pelo apontamento, Airechu). Contudo, os 14 capítulos da história passam rapidamente.
Com todo seus problemas e descobertas acompanhar Fat Charlie se torna algo bastante prazeroso. E não só isso: os personagens que o cercam também! Enquanto o irmão é meio "quadradão", Spider é um fanfarrão de primeira, sempre para cima e desapegado de tudo e todos, mas a convivência com Charlie - e principalmente com Rosie - o fazem rever certas convicções. Rosie, sempre dotada de boas intenções e da vontade de ajudar, acaba por ser a responsável pelo ponta-pé inicial da trama, mas também por mexer com o filho divino. A sua mãe - a Sra. Noah - por outro lado não simpatiza com seu futuro genro e nem mesmo seu irmão, sendo capaz de resistir até mesmo a seus poderes mágicos. A Detetive-Assistente Dayse, que acaba por acaso na vida dos irmãos e acaba se ligando a eles e a louca trama que envolve Fat Charlie, seu ambicioso e desonesto patrão, Grahame Coats, e a viúva de um famoso comediante inglês que busca seu dinheiro devido. O Sr. Nancy, que mesmo na morte dá as caras e mostra porque era querido por uns e irritou tantos outros. São diversos os personagens, e mesmo os que pouco aparecem acabam por cativar o leitor em algum ponto.
O cenário que ambienta a trama não se distingue tanto da nossa realidade, mas os elementos que o complementam é que o tornam fantástico. O mundano e o mágico se cruzam, mas se mantém em paralelo em outros momentos, dando vez a brincadeira que algumas realidades são mais reais que outras. É engraçado notar a naturalidade como mágico é encarado em alguns momentos e por alguns personagens, e como ele é ignorado por outros.
A edição da editora Intrínseca possui um bom trabalho gráfico e trás extras bem interessantes e exclusivos sobre sua experiência de escrever sobre os EUA sendo um autor britânico e outro onde ele revela de onde tira as suas ideias.
Os Filhos de Anansi é recomendado para os amantes de fantasia urbana, fãs de Neil Gaiman, e para todos sobretudo que buscam uma leitura leve, despretensiosa e divertida. 




6 comentários:

  1. Oie,
    não sou muito fã da narrativa do Neil, mas respeito seus livros de qualquer forma.
    Achei que a história deu um nó na cabeça de Charlie é muita informação para ele tudo isso.
    Fiquei com vontade de ler o livro apenas para descobrir como Charlie vai lidar em saber que o pai era um Deus, bem criativo do autor.
    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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  2. Achei a sinopse bem interessante. Gosto bastante de fantasia e por isso me interessei pelo livro. Adorei a forma como você apresentou o livro. Parabéns pelo blog e muito sucesso para você. (:

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  3. Olá Ace,

    Estou com um livro do autor para ler na minha lista de espera, acho que essa é a primeira resenha que leio desse livro, sempre fiquei na dúvida, mas sua resenha foi bem esclarecedora, dica anotada....abraço.

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  4. Olá, Ace! Infelizmente não conheço muita a literatura de Neil embora ele pareça ser ótimo escritor e futuramente queira ler algo dele, mas ainda estou me adaptando ao mundo fantástico e fantasia urbana está longe de ser um gênero que eu leria no momento. Vou anotar a dica, pois considerei a sinopse bem interessante e tentar essa leitura depois :D

    Parabéns pelo post!

    Um beijo, Carol
    Blog com V.

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  5. Oi, Ace!
    Lembro de um certo burburinho que esse livro provocou ao ser lançado por aqui, mas apesar dos elogios ao autor, nunca li nada dele e sinceramente não sei se tenho vontade. Narrativas como Os Filhos de Anansi deixam o leitor curioso por querer saber como o protagonista vai enfrentar tantas descobertas, a ressalva que você fez sobre a naturalidade com que certos personagens lidam com a magia é mesmo interessante, mas ainda não me chamou realmente a atenção para a leitura, de fato. Ainda assim, gostei de saber melhor sobre a trama, se pensar em ler algo do autor um dia, por saber que essa é uma história mais leve, possivelmente poderia pegá-la para ler, sim. ;) Enfim, valeu a dica!
    Beijos!

    ♥ Sâmmy ♥
    ♥ SammySacional.blogspot.com.br ♥
    ♥ DandoUmadeEscritora.blogspot.com.br ♥

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  6. Eu sempre achei que pelo título era algo de mitologia egípcia, não sei por quê. Fiquei ainda mais interessada em ler mais sobre esse mito africano. Confesso que li só um conto do autor, mas pelo pouco que conferi, achei a escrita dele bem envolvente. Vou dar um jeito de comprar esse livro, pois adorei o enredo. E a capa está linda demais!
    beijos

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