terça-feira, 11 de julho de 2017

O Escravo de Capela


“Cada página é como um golpe cruel de chicote. E sai muito sangue!”
RAPHAEL MONTES — Autor de Dias Perfeitos e Jantar Secreto Secreto

Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.
Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em O Escravo de Capela, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos.
Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte.
Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.
Título: O Escravo de Capela
Autor (a): Marcos DeBrito
Editora: Faro Editorial
Número de páginas: 288


Nos últimos tempos a literatura e o folclore nacional tem voltado a se encontrar com regularidade. Das páginas lúdicas dos livros infantis aos contos de terror, passando pelas aventurescas tramas de fantasia juvenis, muitos autores tem buscado reconstruir uma identidade e/ou reinventar os mitos que conhecemos. Talvez um dos mitos mais presentes nessa nova leva literária seja o Saci...
Nas páginas deste livro somos transportados ao período colonial, final do século XVIII, onde a escravatura no Brasil ainda está no seu auge e abolicionismo não passava de "uma ideia tola" trazida da Europa. Na Fazenda Capela, negro não tinha outra obrigação além de trabalhar e nem opção a não ser aceitar o seu destino. E atormentar negros sempre fora um prazer para o sádico Antônio, primogênito do Sr. Batista, que desde a adolescência tornou-se o feitor da fazenda que um dia seria sua, já que o irmão mais novo não tinha o menor interesse nela. Diferente do irmão, Inácio estudara medicina em Coimbra e voltara apenas para uma visita a família, mas em pouco tempo deixa claro em pouco tempo seu desprezo pela segregação e maltrato à vida humana.
Em concomitância, uma nova leva de escravos chega para trabalhar na lavoura de cana, alguns deles recentemente trazidos de África e mal conseguem compreender o idioma de seus senhores. É exatamente isso que coloca Sabola Citiwala em confronto com Antônio: sem entender as ordens do seu feitor, o escravo não obedece as ordens e acaba sendo espancado e chicoteado, e após ser obrigado assistir a missa é levado para a senzala. Lá ele conhece o aleijado Akili, escravo mais antigo da Fazenda Capela e outra vítima da violência extrema do feitor. Determinado a fugir, Sabola irá unir forças ao preto velho para conseguir a desejada liberdade e nem a morte irá impedir que isso aconteça...
Se tem um ponto a ser destacado na estrutura da obra é a fluidez do texto e a forma como ele se torna envolvente. A narração em terceira pessoa nos põe a distancia necessária para acompanharmos tudo o que acontece de um ponto de vista além dos personagens e núcleos. Com uma linguagem simples - com exceção de um ou outro termo utilizado para trazer proximidade com o linguajar da época - e de fácil entendimento e absorção Marcos DeBrito simplesmente nos arrasta pelos acontecimentos da trama sem longas pausas ou rodeios desnecessários. A única exceção talvez esteja no penúltimo capítulo onde reside boa parte das explicações e quebram o ritmo.
A trama, embasada na pesquisa histórica e cultural, nos apresenta uma dura faceta da realidade vivida no período colonial onde os abusos dos senhores de escravos eram regra e a vida humana tinha dois pesos e duas medidas (não que hoje estejamos satisfatoriamente longe disso). Os Cunha Vasconcelos, exceto pelo jovem Inácio, são exemplos perfeitos do que de pior os endinheirados e amorais senhores de terra podiam ser. A postura de Antônio e seu pai por muitos momentos nos fazem questionar a existência de apenas um "monstro" na história tamanho o horror e sofrimento causados por eles. Cenas intensas que chocam, nos revoltam e trazem reflexão, principalmente pela verossimilhança como o real.
A história também vai além dos senhores cruéis, trabalhando mistérios entorno dos personagens, confrontos ideológicos, segredos obscuros, e até arrisca um romance. Num brado de revolta que urge por vingança, o autor não poupa a violência e brutalidade, para recriar o mito do negro de uma perna só como pede uma história de terror regada a sangue.
Apesar de todos os pontos positivos apontados, a minha experiência com a obra foi um tanto diferente das demais relatadas nas resenhas disponíveis em outros sites e blogs. Como se a minha sensibilidade estivesse anestesiada pela triste realidade violenta que nos cerca, ou por já esperar a postura cruel dos personagens conforme arquétipo e período histórico, as cenas que deveriam me chocar não tiveram o efeito esperado. Bem como foi fácil para mim juntar os detalhes da trama e antecipar os acontecimentos vindouros incluindo a conclusão, restando-me uma única surpresa - e não é exagero - dentre tantas planejadas para arrebatar o leitor durante a leitura. Não obstante, isto em momento algum desmerece a obra.
Sobre a edição da obra não há outra opção além de elogiar o trabalho da Faro Editorial. O zelo é visível desde o trabalho gráfico, passando por capa e miolo com acabamento vermelho nas bordas que dão um ar soturno a obra, até a diagramação e revisão. Uma visão bela e aterrorizante, sem sombra de dúvidas.
O Escravo de Capela é uma ótima pra quem busca uma obra de terror daquelas que escorrem sangue a cada virada de página, sem esquecer do clima de mistério que irá ajudar a te prender do inicio ao fim. Prepare-se para sentir-se chocado e impactado pelo que está por vir! Esteja avisado...
Cuidado com o Saci!


11 comentários:

  1. Olá! Tudo bom?
    Confesso que fiquei apaixonada pelo enredo desse livro, estou vidrada, quero muito, desejo muito ler. Acho que ainda não tenho nenhum experiencia literária com um nacional assim.
    Beijos.

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  2. Estou lendo Escravo de Capela e vou te dizer que a leitura é bem intensa, Antônio é um personagem maluco e doente!
    To ansiosa para terminar o livro.

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  3. Eita que livro intenso! Não conhecia mas fiquei super curiosa! Não costumo ler nada assim, leio assuntos pesados mas de outros temas! Ler sobre uma época histórica me fascina muito! Já adicionei na lista de desejado e espero conseguir ler em breve! Parabéns pela resenha

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  4. Oi, tudo bem? Esse livro é bem diferente dos que costumo ler. Mas parece prender bem o leitor do início ao fim com seus mistérios e acontecimentos estranhos. GOsto de livros que me prendem assim.
    Obrigada pela dica.
    beijos

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  5. Oiii Ace tudo bem
    Eu fiquei encantada pela obra indicada hoje no blog, havia visto apenas uma foto da edição e só por isso tinha despertado meu interesse, com toda certeza adoraria ler, é um gênero que me atrai e a época também, ótima resenha.
    Beijinhos

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  6. Olá, gostei muito da sua resenha. Não conhecia a obra, mas já fiquei querendo ler, pois é um gênero que me atrai e com tantos elementos de terror e suspense eu já estou anotando esse dica. Bjs

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  7. Oi, Ace!
    Não conhecia a obra, mas interessante a proposta de uma ambientação histórica com inspiração numa lenda folclórica brasileira tão conhecida que é a do Saci. Muito boa a ressalva sobre a narrativa fluir facilmente, tendo apenas breves palavras aqui e ali referentes ao tempo da história, e de repente poderia até me deixar curiosa com a leitura se, no entanto, não fosse de terror - gênero este de que passo longe, então vou deixar a dica passar, rs. Mas é uma proposta certamente diferente que deve atrair muito aos leitores do gênero ou mesmo quem procura algo com traços mais folclóricos e ainda representando um pouco da história, ainda que, nesse caso, horrível e lastimosa, do Brasil em seu início.
    Beijos!

    ♥ Sâmmy ♥
    ♥ SammySacional.blogspot.com.br ♥

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  8. Oi Ace, uma pena que o livro não tenha te conquistado tanto, mas sua resenha me conquistou e eu adoraria ler este livro, que aliás já estou anotando a dica, pois não conhecia. O book trailer no final da resenha finalizou muito bem a postagem.
    Bjs, rose.

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  9. Olá tudo bem?
    Realizei a leitura dessa obra no mês passado e adorei! Achei incrível a forma como o autor relatou as crueldades da época da escravidão e até gostei do romance prematuro que ocorreu na história. Apesar de não gostar de fantasia, achei que essa trama foi muito bem construída e deu para perceber que o autor fez uma pesquisa bem profunda sobre os acontecimentos da época. Eu gostei muito.

    beijinhos!

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  10. Oii, tudo bem?
    Eu não conhecia o autor e nem o livro, mas acredito que para quem gosta do gênero terror o livro é uma boa pedida, infelizmente eu sou muito medrosa para uma leitura dessas, mas com certeza irei indicar aos meus amigos.

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  11. Oie!
    No começo da sua resenha achei que fosse amar o livro por parecer que havia fantasia, mas na medida que fui lendo fiquei com o pé atrás, pois parece ter uma carga muito forte e eu não sei se conseguiria ler, mas gostei muito do seu ponto de vista.

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