quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Muitas Águas



É preciso acreditar em certas coisas para poder vê-las!
Sandy e Dennys, os gêmeos da família Murry, sempre foram práticos, realistas e nunca prestaram muita atenção às conversas dos pais cientistas sobre coisas altamente teóricas como tesseratos e farândolas. Mas, após um acidente no laboratório do sr. e da sra. Murry, algo acontece com eles que desafia drasticamente suas capacidades de crer no impossível. Com um desastre à vista, será que os gêmeos conseguirão encontrar uma maneira de voltar à realidade?


Título: Muitas Águas - Uma Dobra No Tempo #4
Título original: Many Waters - Time Quintet #4
Autora: Madeleine L’Engle

Tradução: Érico Assis
Ano: 2018
Editora: Harper Collins
Páginas: 320


As vezes é preciso dar um passo atrás para se conseguir avançar. Após Um Planeta em Seu Giro Veloz, a autora Madeleine L’Engle retorna para mais uma aventura dos Murry, não exatamente trazendo uma sequência cronológica, mas entregando a sua obra mais fluida e madura até então.
Depois de acompanharmos três volumes de aventuras da mais velha e o mais novo dos irmãos MurryMeg Charles Wallace - chegou a vez dos gêmeos Sandy e Dennys viverem a sua. A história acontece alguns anos antes dos eventos narrados no terceiro volume, no fim de um inverno longo e frio. Após voltarem para casa esfomeados de um treino hóquei e encontrarem a casa vazia, os gêmeos adolescentes decidem que não vão esperar até a hora do jantar.
Os irmãos invadem o laboratório cientifico dos pais e apenas ao sair se dão conta que interromperam um experimento em andamento. Como consequência, os gêmeos são lançado em uma viagem até um passado onde Manticoras, Grifos, Serafins, Nefilins, Mamutes, Unicórnios desafiam a racionalidade e o ceticismo. Neste deserto sem fim,  precisam reaprender a acreditar caso queiram sobreviver e voltar para casa.
Se afastando ainda mais dos jargões científicos e da narrativa truncada dos primeiros volumes, Madeleine L’Engle consegue se renovar outra vez e entregar aquele que até o momento conseguiu ser o livro mais palatável da série.
Se em Um Planeta em Seu Giro Veloz a autora apresentou uma trama mais madura sem abandonar a fantasia e espiritualidade comuns a série, dessa vez ela resolveu abraçar de vez esses conceitos para levar o leitor para redescobrir uma história bastante conhecida: a história de Noé. Ter escolhido justamente os mais céticos, e até então, pouco utilizados dos Murry é o que torna a jornada mais interessante.
Apesar do mergulho na fantasia e nos termos bíblicos, a linguagem do texto é simples e clara, e entrega uma narrativa mais ágil e envolvente ainda que a de seus antecessores. As tecnicidades científicas que exigiam do leitor uma maior atenção aos detalhes dão lugar a uma narrativa mais sutil e poética, embora seu véu de mistério continue e algumas falhas se mantenham. Nem tudo é, e nem tem a intenção de ser explicado.
A autora explorada muito bem os gêmeos e demais personagens conseguindo no decorrer da trama abordar o amadurecimento e autodescoberta da individualidade dos protagonistas adolescentes, diferentes relações e até dialogar sobre amor livre de forma breve. Existem no texto diversas questões que continuam atuais e relevantes, e apesar de não se aprofundar nas questões, Madeleine L’Engle sutilmente planta a semente da reflexão no leitor.
É importante frisar mais uma vez que apesar de o quarto volume da série Uma Dobra no Tempo, Muitas Águas se encaixa na linha do tempo antes dos acontecimentos do terceiro volume. Essa informação não interfere em nada no aproveitamento da leitura pois cada aventura é independente, mas caso prefira ler em ordem cronológica saiba como fazer da maneira correta.
Mantendo o costume, vale ressaltar que a edição da Harper Collins Brasil mantém seu padrão de qualidade e beleza, desde a capas e aos mínimos detalhes do acabamento, arte interna das divisões de capítulos e diagramação. A beleza salta aos olhos e praticamente vendem a obra ao primeiro contato.
A clareza e leveza de Muitas Águas trazem para ele uma larga vantagem relação a seus antecessores, conseguindo trazer boas reflexões e uma aventura envolvente sem os entraves menores que permeavam a série. Ao fim da leitura, me vi ansioso pelo fechamento do ciclo e a derradeira aventura dos Murry, e curioso para saber as demais obras da autora desembarcarão também por aqui. 

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