segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Rei das Cinzas

O mundo de Garn já foi composto de cinco grandes reinos, até que o rei da Itrácia foi derrotado e todos os membros de sua família foram executados por Lodavico, o implacável rei de Sandura, um homem com ambições de dominar o mundo. A família real de Itrácia eram os lendários Jubardentes, e representavam um grande perigo para os outros reis. Agora restam quatro grandes reinos, que estão à beira de uma guerra.
Mas há rumores de que o filho recém-nascido do último rei de Itrácia sobreviveu, levado durante a batalha e acolhido pelo Quelli Nacosti, uma sociedade secreta cujos membros são treinados para infiltrar e espionar os ricos e poderosos de Garn. Com medo de isso ser verdade, e a criança crescer com um coração cheio de desejo de vingança, os quatro reis oferecem uma enorme recompensa pela cabeça da criança.
Na pequena vila de Oncon, Declan é um aprendiz de ferreiro, aprendendo os segredos da produção do fabuloso aço do rei. Oncon está situada na Covenant, uma região neutra entre dois reinos. Desde que a área de Covenant foi declarada, a região existiu em paz, até a violência explodir com traficantes de escravos indo até a vila capturar jovens homens para serem soldados em Sandura. Declan precisa escapar, para levar seu conhecimento precioso para o barão Daylon Dumarch, comandante de Marquensas, talvez o único homem que pode derrotar Lodavico de Sandura, que agora se aliou à fanática Igreja do Deus Único e está marchando pelo continente, impondo sua forma extrema de religião sobre a população e queimando descrentes pelo caminho.
Enquanto isso, na ilha de Coaltachin, o domínio secreto da Quelli Nacosti, três amigos estão sendo instruídos nas artes mortais de espionagem e assassinato: Donte, filho de um dos mais poderosos mestres da ordem; Hava, uma menina séria com habilidades de luta que poderiam derrubar qualquer oponente; e Hatu, um rapaz estranho e conflituoso no qual fúria e calma lutam constantemente, e cujo cabelo é de um tom brilhante e ardente de vermelho.
Título: O Rei das Cinzas
Série: A saga dos Jubardentes - Volume 1
Autor (a): Raymond E Feist
Tradutor: 
Ana Cristina Rodrigues
Editora: Harper Colins
Número de páginas: 512


Um longo primeiro ato. Assim, parafraseado a fala de um dos personagens no último capítulo, inicio o texto e não poderia concordar mais. O Rei das Cinzas é antes de mais nada um excelente começo para uma saga de fantasia, e longe de mim reclamar. Quem leu qualquer outro trabalho de Raymond E. Feist conhece a competência do autor e sabe como ele é capaz de prender o leitor do início ao fim de suas séries, conectado-o ao cenário, seus personagens e histórias. E, mesmo o livro em questão funcionando como uma grande introdução para algo maior, todas essas qualidades se repetem com maestria.
Logo de cara somos apresentados ao cenário e ao contexto que abrigará a trama principal através de um prólogo longo protagonizado Daylon, o barão de Marquensas. Em meio a uma sangrenta e traiçoeira batalha para levar ao fim a linhagem dos reis Jubardentes, sob liderança do rei Lodavico de Sandura, Daylon toma uma decisão arriscada ao poupar um bebê e enviá-lo para ser criado longe dali em meio a Nação Invisível. Com o reino da Itrácia em cinzas e sem os Jubardentes, um tempo de calmaria se instaurou.
Dezessete anos depois, os tempos de falsa paz entre os reinos estão ameaçados. Acordos antigos não tem mais o mesmo efeito e, com total apoio de Lodavico, a Igreja do Deus único expande-se suplantado as demais fés. Aqui conhecemos Hatushaly, um garoto de cabelos cor de chamas, treinado como um efetivo mestre espião e assassino, e seus companheiros Hava e Donte. Hatu não conhece a sua origem nobre, mas instintivamente sabe que há algo escondido em seu passado e também em seu sangue. Algo que desperta o interesse de todos, e por isso precisa se manter oculto, algo muito difícil quando as pessoas mais poderosas e influentes buscam a criança desaparecida que carrega a maldição que pode alterar toda uma guerra e redefinir a estrutura política dos reinos.
Em paralelo a isso, conhecemos também o jovem e talentoso aprendiz de ferreiro Declan, que habita a zona neutra da Aliança. Pronto concluir seu aprendizado e comprar a ferraria de seu mestre, Declan tem a sua vida virada de ponta-cabeça quando sua vila é invadida por mercenários que exigem com violência que todo jovem que possa lutar junte-se ao serviço de Ludavico, algo que quebra totalmente o acordo dos territórios livres. Instruído por seu mestre, o jovem precisa seguir até Marquensas para se apresentar ao Barão Daylon, deixá-lo a par da situação e servi-lo se assim for necessário.
Dois homens de mundos e origens diferentes, tem seu caminho conectado por uma ameaça crescente. Cada um deles terá que lidar com as mudanças, aprender e crescer para estar preparado para o que virá. E caminho esconde mais segredos do aparenta, e o principal talvez seja o papel do Barão de Marquensas nisso tudo.

Como é habitual de seus trabalhos, Feist consegue construir em O Rei das Cinzas uma narrativa segura e agradável, em até certo ponto ágil, mesmo quando detalhamento é requerido. Mesmo assim não se engane achando que essa será uma leitura rápida, pois há muito conteúdo em suas mais de quinhentas páginas. Feist trabalha muito bem o enredo, tanto as intrigas políticas e estratégias quanto a vida mundana, abordando temas como religiosidade, liberdade sexual e machismo.
Os personagens são bem trabalhados, e mostram personalidade e riqueza mesmo quando sua aparição é rápida. Embora a narrativa seja dividida em várias frentes, com destaque para Declan e Hatu, o autor aproveita os diversos pontos de vista para expandir o cenário e aprofundar os personagens, algo que faz muito bem. É delicioso acompanhar o crescimento e amadurecimento dos personagens, bem como as relações construídas no decorrer dela.
Talvez para muitos, o ponto mais baixo da obra se dê pela falta de objetividade e um conflito maior a ser resolvido dentro deste volume. Não que não hajam conflitos e problemas para os personagens, mas a trama se desenvolve de forma aberta, introduzindo-os mais ao que está por vir do que entregando resultados. Como citado no primeiro parágrafo, O Rei das Cinzas é uma grande introdução a uma nova saga épica em desenvolvimento e Feist já mostrou mais de uma vez ser capaz de escrever histórias memoráveis.
Dificilmente alguém que tenha concluído a leitura não estará enredado nos mistérios e promessas construídos ao longo da trama, e ansiosos para construção dos destinos marcados para os personagens. Raymond E. Feist mais uma vez nos deixa presos e curiosos para saber os eventos que serão narrados a seguir, e, certamente, farei questão de acompanhar A saga dos Jubardentes. Recomendo o mesmo a todos que gostarem de uma boa fantasia.


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